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Já não há amores assim...

Domingo, 20.04.08
As orações de Soror Maria da Pureza (III)
... ”E as beladonas! Tantas! Havia-as em todos os canteiros. Brotavam da terra, misteriosas e perfumadas, vestidas de seda cor-de-rosa, aqui e ali, por toda a parte, às vezes até nas ruas do jardim! Nas ruas... que escândalo!
                      
Comentava o gesto brutal do velho jardineiro, arrancando-as e atirando-as para o lado sem piedade. Coitadinhas!... Tantas! Sem uma folha: a haste direita e o palmito ao alto! Toda a seiva se desentranhou em cor e perfume. Elas, todas, apenas são corola e alma! E as beladonas, toda a gente sabe, só brotam da terra, misteriosas e perfumadas, vestidas de cor-de-rosa, em Setembro. O ano tivera pois trezentas e sessenta e cinco noites de Setembro...
           
Mariazinha lembrava-se muito bem:Tantas! Parecia um milagre! O namorado até se ria de ver tantas, tantas, todas as noites mais, como se andassem por baixo do chão em qualquer misteriosa tarefa e surgissem à noite, à flor da terra, a beberem o luar.« – Qualquer dia nasce-te uma no peito, vais ver...», dizia ele a rir, encostado às grades onde a vinha virgem se enlaçava. Fora sempre Setembro. Mariazinha lembrava-se muito bem.” ... (continua)
in “As máscaras do destino” de Florbela Espanca
           

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publicado por Filomena às 12:04