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Já não há amores assim...

Terça-feira, 22.04.08
As orações de Soror Maria da Pureza (V)

... “Mariazinha tão pura ! Em vão o jardim voluptuoso multiplicava todas as suas seduções, desvendava todos os seus segredos numa febre ansiosa de tentar; em vão espalhava na noite luarenta todas as suas jóias numa prodigalidade de avarento que, numa hora de demência, resolve atirar com todos os seus tesoiros à rua; em vão queimava por ela todos os arómatas, em caçoilas de prata e urnas de cristal, no coração das flores. A vinha virgem agarrava-se com mais força, prendia mais os dedos, num espreguiçamento voluptuoso, lânguido e firme, doce e brutal, ao duro ferro das grades.

O vento sacudia a cabeleira solta das árvores, que no escuro ondeavam como jubas de feras. Mariazinha sorria. A sua carne era como a carne das rosas, que mesmo aos beijos do sol fica fria. A rubra e ardente poesia da noite sensual fazia realçar ainda mais a límpida candura da virgem. O namorado, encostado às grades, dizia-lhe: «- Quando te vejo vir ao longe, tenho vontade de te rezar: Avé Maria, cheia de graça... Maria! Toda tu és luz e iluminas-me, toda tu és clarão e incendeias-me! Toda tu és expressão e alma imaterial; as tuas formas são espírito revestindo outro espírito, como um manto de rendas sobre um vestido de prata. O teu olhar é mais profundo que os teus olhos, a tua boca é mais pequenina que o teu riso. Tu não poisas os pés no chão, eu bem vejo como tu andas, Maria! Vens para mim, da escuridão da noite, num andor coberto de açucenas, como uma aparição, e as flores do jardim acorrem todas à tua passagem, recolhidas e graves, à beira do caminho, de mãos postas, rezando: Avé Maria, cheia de graça, como se passasse uma procissão...!»” ...                  (continua)                                               

in “AS máscaras do destino” de Florbela Espanca

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publicado por Filomena às 11:13