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Já não há amores assim...

Terça-feira, 29.04.08
As orações de Soror Maria da Pureza (XI)
...”Um dia, vendo-a morrer assim aos poucos, os pais cederam de repente. Mariazinha, quando soube, chorou pela primeira vez e, encarando a mãe, com as lágimas a correrem-lhe em fio pelas faces, balbuciou: «- Coitadinha!»
Escolheram um convento de Toledo, onde a regra não era muito apertada nem muito severa.
A mãe até tinha medo de a ver morrer no caminho. Levaram-na como quem acompanha uma filha morta ao túmulo onde há-de ficar. E, ela, perdida novamente na sua extática imobilidade de figurinha de cera, atravessou os fartos vales portugueses, os desolados campos de Castela, sem parecer ver nada à sua volta.
Chegou a Toledo numa manhã de chuva. A cidade, monástica e triste, parada na evolução dos séculos, tão curiosa com as suas ruas estreitas e tortuosas, os seus arcos, as suas escadinhas, o seu ar severo de monja, não lhe mereceu um olhar. Não a viu.
Ao separar-se da mãe, horas depois, repetiu apenas, a chorar, a mesma palavra que lhe viera aos lábios naquele dia em que soubera que entraria no convento: «- Coitadinha!»”...                     continua
in “As máscaras do destino” de Florbela Espanca

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publicado por Filomena às 11:54


2 comentários

De Filomena a 30.04.2008 às 16:38

Estas fotos são de Toledo.
Encontrei-as na Web.

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