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Já não há amores assim...

Quarta-feira, 30.04.08
As orações de Soror Maria da Pureza (XII)
... “Quando as grandes portas se cerraram, pesadas e tristes, por detrás do vulto doloroso da mãe, Mariazinha, noiva-menina dum noivo-morto, olhou em volta e sorriu.
Todo o tempo que durou o seu noviciado, foi a mais obediente, a mais humilde, a mais submissa de todas. As mestras não tinham palavras para lhe elogiar a doçura, a docilidade; e era tão profunda a paz que em seu redor irradiava, que a própria superiora, severa e ríspida, esboçava um eflúvio de sorriso quando a via passar, branca e frágil, pelos longos corredores escuros. Foi como se num sombrio convento de Toledo tivesse entrado, pela primeira vez, um raio de sol de Portugal.
E a Mariazinha passava os dias a sorrir e a murmurar às vezes umas palavras sem nexo, uma estranha toada de oração que ninguém entendia. Na cerca gostava de se sentar num banco sob um dossel de vinha virgem que há muitos anos se abraçava ao tronco carcomidfo de uma acácia velha. Contemplava-lhe as folhas, jóias cravejadas de rubis, os dedos que se crispavam no tronco musgoso... e sorria enlevada, pendendo as mãos no regaço.”...                               continua
in “As máscaras do destino” de Florbela Espanca

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publicado por Filomena às 11:03


1 comentário

De Hugo Jorge a 30.04.2008 às 16:44

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