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Já não há amores assim...

Segunda-feira, 05.05.08
As orações de Soror Maria da Pureza (XVI)
... “No convento cada vez se dizia com mais insistência que Soror Maria da Pureza era santa. Tinha êxtases e visões. Mal poisava os pés no chão, não comia, não se deitava. De noite estendia os braços em cruz, e sorria. O velho capelão curvava-se reverente quando ela passava, quase imaterial, pelos corredores escuros.. Tinha o andar baloiçado e sereno de quem caminha no andor em procissão.. Resplandecia. Parecia feita de luz.
   
Uma das pequeninas dizia ter visto a velha acácia, que já não dava flores, deixar cair pétalas no chão aos pés da vinha virgem, uma tarde em que Soror Maria da Pureza lá rezara uma oração.
E no plácido silêncio dos claustros, onde o gorgeio do veiozinho de água continuava a afagar os lírios roxos, no coro onde os vitrais transformavam, como alquimistas, o sol em pedras preciosas, na cerca cheia de murmúrios e risos de passarinhos, na igreja onde Nossa Senhora da capelinha cheia de luz continuava dia e noite a sorrir ao menino que lhe estendia os braços, no banco, sob o dossel da vinha virgem, por toda a parte, enfim, Soror Maria da Pureza, indiferente a tudo, cada vez mais exangue, mais frágil, mais luminosa, continuava a rezar as suas orações, que andavam de boca em boca e que eram mais lindas e mais ferverosas que as de Santa Teresa.” ...                            continua
in “As máscaras do destino” de Florbela Espanca

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publicado por Filomena às 10:23


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