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Já não há amores assim...

Quinta-feira, 24.04.08

As orações de Soror Maria da Pureza (VII)

... ” « - Por que te calas? Não dizes nada? Fecha os olhos como uma criancinha que quer dormir. Deixa-te estar assim meu amor! Indigno sacrário que recolhe os teus gestos de beleza, só de joelhos devia ver-te sonhar. Indigno pecador, como foi que te mereci?! Para te pagar as horas inefáveis que das tuas mãos recebo, as horas de paz que deixas cair sobre o mundo, toda a minha alma em preces, de joelhos, de mãos postas, não é o bastante, Maria! Por ti deixar-me-ia sacrificar, as chagas das minhas mãos seriam purificadas pela fímbria do teu vestido.

   

 

Estas grades de ferro defendem-te do hálito de toda a minha impureza, como as grades de prata que encerram, longínqua e puríssima, uma Virgem da minha terra. Não me atrevo a tocar-te: as minhas mãos seriam queimadas como as de um sacrílego. Para dizer as letras do teu nome, como quem passa as contas de um rosário, confesso primeiro os meus pecados para não blafesmar, Maria! Porque te calas? Tens medo da noite, meu amor?»

   

 

Mariazinha mexia os lábios como quem murmura mas não dizia nada. As mãozitas dobravam-se-lhe no regaço, como hastes que têm sede, ao ardor do sol do meio-dia. E todas as noites daquele ano em que não houvera Inverno, o namorado, encostado às grades, rezara a litania da sua puríssima paixão.”...                (continua)

 

in “As máscaras do destino” de Florbela Espanca

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publicado por Filomena às 11:35

Já não há amores assim...

Quarta-feira, 23.04.08
As orações de Soror Maria da Pureza (VI)
... “Mariazinha sorria calada, e o sorriso iluminava-a toda. Junto à grade, o vestido era uma opala a desmaiar...
«- Não dizes nada? Porque te calas? Não há ninguém que nos oiça! E quem nos entenderia? As minhas palavras só podem ungir os teus ouvidos, óleo santo que os teus sentidos recolhem como um orvalho do céu. Gosto tanto de ti! O meu amor já veio comigo quando eu nasci, entrou-me no peito como uma pomba e lá fez o ninho! Na minha boca andou sempre o teu sorriso, nos meus olhos o teu olhar, e foram os teus pés, maravilhosas flores de brancura, que traçaram a pétalas o caminho para eu vir ter contigo. Andei anos a procurar-te a achei-te! Procurar-te era achar-te já. Estavas comigo em espírito, divino espírito que se fez carne para me salvar! Maria!»
      
Mariazinha cruzava as mãos brancas no peito, num gesto brando, magoado e tímido; parecia uma andorinha que, ao cair da noite, no beiral onde tem o ninho, recolhe as asas apaziguada e contente.”...                                                                                       (continua)                                               
in “AS máscaras do destino” de Florbela Espanca

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publicado por Filomena às 10:51

Já não há amores assim...

Terça-feira, 22.04.08
As orações de Soror Maria da Pureza (V)

... “Mariazinha tão pura ! Em vão o jardim voluptuoso multiplicava todas as suas seduções, desvendava todos os seus segredos numa febre ansiosa de tentar; em vão espalhava na noite luarenta todas as suas jóias numa prodigalidade de avarento que, numa hora de demência, resolve atirar com todos os seus tesoiros à rua; em vão queimava por ela todos os arómatas, em caçoilas de prata e urnas de cristal, no coração das flores. A vinha virgem agarrava-se com mais força, prendia mais os dedos, num espreguiçamento voluptuoso, lânguido e firme, doce e brutal, ao duro ferro das grades.

O vento sacudia a cabeleira solta das árvores, que no escuro ondeavam como jubas de feras. Mariazinha sorria. A sua carne era como a carne das rosas, que mesmo aos beijos do sol fica fria. A rubra e ardente poesia da noite sensual fazia realçar ainda mais a límpida candura da virgem. O namorado, encostado às grades, dizia-lhe: «- Quando te vejo vir ao longe, tenho vontade de te rezar: Avé Maria, cheia de graça... Maria! Toda tu és luz e iluminas-me, toda tu és clarão e incendeias-me! Toda tu és expressão e alma imaterial; as tuas formas são espírito revestindo outro espírito, como um manto de rendas sobre um vestido de prata. O teu olhar é mais profundo que os teus olhos, a tua boca é mais pequenina que o teu riso. Tu não poisas os pés no chão, eu bem vejo como tu andas, Maria! Vens para mim, da escuridão da noite, num andor coberto de açucenas, como uma aparição, e as flores do jardim acorrem todas à tua passagem, recolhidas e graves, à beira do caminho, de mãos postas, rezando: Avé Maria, cheia de graça, como se passasse uma procissão...!»” ...                  (continua)                                               

in “AS máscaras do destino” de Florbela Espanca

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publicado por Filomena às 11:13

Já não há amores assim...

Segunda-feira, 21.04.08
As orações de Soror Maria da Pureza (IV)
... “Pois naquele ano, quando o namorado a via aparecer ao longe, no

umbral da porta envidraçada, descer os degraus de mármore do terraço, surgir na grande avenida do jardim em direcção às grades, muito branca, muito leve, quase imaterial, o seu desejo era cair de joelhos, como a uma aparição e rezar. Mariazinha de quinze anos, quase um bebé, e já uma senhora!

O oval alongado daquele rosto de madona, aquele olhar ingénuo de menina-donzela, os cabelos lisos, sem uma onda, a emoldurar-lhe de oiro a face branca, aquele seu ar reflectido e tímido, todo aquele conjunto era de uma tal candura, de uma tal pureza que, ao vê-la, a primeira impressão de toda a gente era de piedade: - Meu Deus, não lhe façam mal! Não lhe toquem... olhem que a desfolham...
O namorado, encostado às grades onde a vinha virgem se enlaçava, via-a vir e sorria enlevado.                                                  

Mariazinha de quinze anos, quase um bebé, e já senhora! Para os seus desiludidos trinta anos, ela era uma noiva-menina que Deus lhe dera para trazer ao colo. Via-a tão pura que não ousava estender a mão com medo que se esvaísse, via-a tão frágil que não se atrevia a tocar-lhe com receio que ela se esfolhasse... O seu cumprimento era todas as noites um sorriso.” ...                                                         (continua)
in “As máscaras do destino” de Florbela Espanca

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publicado por Filomena às 14:24

Já não há amores assim...

Domingo, 20.04.08
As orações de Soror Maria da Pureza (III)
... ”E as beladonas! Tantas! Havia-as em todos os canteiros. Brotavam da terra, misteriosas e perfumadas, vestidas de seda cor-de-rosa, aqui e ali, por toda a parte, às vezes até nas ruas do jardim! Nas ruas... que escândalo!
                      
Comentava o gesto brutal do velho jardineiro, arrancando-as e atirando-as para o lado sem piedade. Coitadinhas!... Tantas! Sem uma folha: a haste direita e o palmito ao alto! Toda a seiva se desentranhou em cor e perfume. Elas, todas, apenas são corola e alma! E as beladonas, toda a gente sabe, só brotam da terra, misteriosas e perfumadas, vestidas de cor-de-rosa, em Setembro. O ano tivera pois trezentas e sessenta e cinco noites de Setembro...
           
Mariazinha lembrava-se muito bem:Tantas! Parecia um milagre! O namorado até se ria de ver tantas, tantas, todas as noites mais, como se andassem por baixo do chão em qualquer misteriosa tarefa e surgissem à noite, à flor da terra, a beberem o luar.« – Qualquer dia nasce-te uma no peito, vais ver...», dizia ele a rir, encostado às grades onde a vinha virgem se enlaçava. Fora sempre Setembro. Mariazinha lembrava-se muito bem.” ... (continua)
in “As máscaras do destino” de Florbela Espanca
           

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publicado por Filomena às 12:04

Já não há amores assim...

Sábado, 19.04.08
As orações de Soror Maria da Pureza (II)
...“Mariazinha lembrava-se muito bem; era todas as noites a mesma coisa: o cascalho dos arruamentos a reluzir, como se alguma fada caprichosa tivesse andado por ali a atirar às mãos-cheias punhados de pequeninos sóis; as grades do jardim, ao fundo, onde se enlaçava a vinha virgem de folhagem de rubis que a mãe mandara arrancar mais de cem vezes, e que voltara sempre não sabiam donde, não sabiam como, a enlaçar as grades em mil inflexíveis abraços, que nem a morte podia quebrar.” ...      (continua)
in “As máscaras do destino” de Florbela Espanca

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publicado por Filomena às 12:54

Já não há amores assim...

Sexta-feira, 18.04.08

Começo hoje a contar uma história de amor, de Florbela Espanca, e que acabei de ler num dos livros oferecidos pelo Jornal de Notícias. É uma linda e enternecedora história de amor. Vai ser reproduzida em capítulos e ilustrada com imagens tiradas da Web. Espero que gostem.

 

As orações de Soror Maria da Pureza (I)
“No mundo, era branca e loira; tinha quinze anos e chamava-se Maria. Morava numa grande casa cor-de-rosa que dia e noite espreitava para a estrada, através da espessa folhagem das frondosas tílias dum jardim.
                                                
 Mariazinha, branca e loira, tinha um namorado, e já havia um ano que lhe tinham dado licença para falar com ele às grades do jardim da sua casa cor-de-rosa.
Já havia um ano. E Mariazinha pouco mais era ainda que um bebé! Como o ano tinha passado depressa! E que estranho ano aquele, sem Inverno! Mariazinha nunca tinha visto um ano assim, um ano que só tivera noites, trezentas e sessenta e cinco noites de Setembro, tépidas, cariciosas, luarentas. Dos dias não se lembrava, e Inverno não teve com certeza. Floriram as azáleas por acaso?...

                                              

As magnólias da grande avenida cobriram o chão de neve, porventura? O velho jardineiro diz que sim. Mas que sabem os velhos jardineiros de estes anos estranhos, só com noites de Setembro?!”...                 (continua)
in “As máscaras do destino” de Florbela Espanca

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publicado por Filomena às 11:33








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